Reurb sob ataque: 1.200 projetos parados e R$ 8 bi em risco no Congresso
Levantamento mostra que metade das cidades brasileiras travou processos de regularização fundiária após mudança na lei. Saiba como a disputa política pode afetar quem aguarda escritura.

Um levantamento inédito da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), divulgado nesta semana, revela que 1.200 processos de regularização fundiária urbana (Reurb) estão parados em todo o país desde a aprovação de uma emenda na Câmara, em julho. O texto, que altera critérios de demarcação de áreas ocupadas, gerou insegurança jurídica e travou investimentos estimados em R$ 8 bilhões em infraestrutura básica.
A disputa política em torno da terra urbana ganhou novos capítulos neste mês, com a instalação de uma CPI no Senado para investigar a atuação de cartórios e prefeituras na emissão de títulos de propriedade. O relator, senador Paulo Paim (PT-RS), afirmou em entrevista à Agência Senado que "a regularização fundiária virou moeda de troca em acordos partidários" e que o objetivo é dar transparência a um processo que afeta diretamente 5 milhões de famílias.
Enquanto isso, o governo federal tenta destravar a Reurb por meio de uma medida provisória que cria o Programa Casa Legal, com meta de emitir 2 milhões de escrituras até 2028. A MP, porém, enfrenta resistência da bancada ruralista e de parte do centrão, que defendem alterações no trecho que prevê a doação de áreas públicas urbanas para ocupantes de baixa renda. O ministro das Cidades, em evento da Abrainc na última quinta-feira, alertou que cada mês de atraso representa R$ 400 milhões em investimentos não realizados.
O impacto prático para o mercado imobiliário é direto. Segundo a Secovi-SP, o número de lançamentos em áreas regularizadas caiu 35% no segundo trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado. Para o especialista em direito imobiliário, Rafael Sampaio, a indefinição política eleva o custo dos financiamentos em até 2 pontos percentuais, pois os bancos passam a exigir garantias adicionais para imóveis em áreas não regularizadas.
No último Copom, realizado na semana passada, o Banco Central manteve a Selic em 10,5% ao ano, mas destacou em seu comunicado que a "insegurança jurídica no setor fundiário" é um dos fatores que podem pressionar a inflação de aluguéis a médio prazo. O índice FipeZap de locação residencial apresentou alta de 1,8% em julho, acumulando 12,4% em 12 meses, puxado justamente por regiões com pendências de regularização.
Para quem aguarda a escritura ou pretende comprar um imóvel em área ainda não regularizada, a recomendação é acompanhar de perto o andamento da MP e da CPI, que devem ser votados até o final de setembro. Especialistas sugerem que, antes de assinar um contrato, o comprador verifique no cartório se o imóvel está inserido em um perímetro de Reurb já protocolado. A disputa política, embora longe do fim, tende a pressionar o Congresso por uma solução que destrave os projetos e devolva a confiança ao setor.


