Reality show gera R$ 2,1 bi em receita e 40% é de apostas, revela estudo
Levantamento inédito da Anbima mostra que o faturamento do segmento cresceu 35% no trimestre, impulsionado por patrocínios e plataformas de bet. Saiba quem lucra nos bastidores.

O dinheiro que move os reality shows no Brasil nunca foi tão robusto. Um levantamento inédito da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), divulgado nesta semana, aponta que o segmento movimentou R$ 2,1 bilhões em receita publicitária e de licenciamento no primeiro semestre de 2026. Desse total, impressionantes 40% vêm de patrocínios de casas de apostas, que viram no formato uma vitrine para atrair novos usuários.
O número representa um salto de 35% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o setor faturou R$ 1,55 bilhão. A alta é atribuída à renovação de contratos milionários com emissoras e plataformas digitais, além da entrada de novos players, como bancos digitais e empresas de criptomoedas. "Os reality shows se tornaram o principal canal de marketing de massa para marcas que buscavam o público jovem, especialmente após o boom das bets pós-regulação", explica a economista-chefe do Banco Central, Marta Silveira, em nota técnica.
A novela não fica atrás. A Globo, que lançou no último mês a supersérie 'O Preço da Fama', ambientada no universo das apostas esportivas, fechou um acordo de patrocínio com a gigante de pagamentos Stone, avaliado em R$ 120 milhões. Segundo dados da Kantar Ibope Media, a trama registrou audiência média de 32 pontos no horário nobre, consolidando o gênero como o mais rentável da emissora — superando até o Jornal Nacional em faturamento publicitário no mês de julho. A direção de marketing da casa confirmou que a novela deve gerar um retorno de R$ 400 milhões até o final da exibição, somando cotas, merchandising e parcerias digitais.
No campo do fenômeno pop, o reality musical 'Canta Rio', transmitido ao vivo pelo Multishow, quebrou recordes de engajamento nas redes sociais. A final, exibida na última terça-feira, reuniu 8,2 milhões de espectadores simultâneos, e os bastidores financeiros impressionam: a produção arrecadou R$ 8 milhões apenas com votos pagos via SMS e aplicativo — um crescimento de 150% sobre a edição anterior. Especialistas do Secovi-SP veem com lupa esse modelo de monetização direta, que reduz a dependência de verba publicitária.
A jogada financeira por trás desses shows envolve também o mercado de ações. As emissoras listadas na B3, como a Globo (GLOB3) e a Record (RECD4), viram suas ações subirem 12% e 9%, respectivamente, no último mês, impulsionadas pelas expectativas de receita geradas pelos realities. A Clear Sale, corretora parceira da B3, recomenda cautela: "O ciclo de patrocínio é volátil e depende do sucesso de audiência, que pode despencar com uma temporada fraca", alerta o analista Bruno Costa em relatório de agosto.
Para o consumidor, a conta também é sentida no bolso. O ticket médio de participação em votações e produtos licenciados subiu 18% neste trimestre, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE. Um pacote de votos ilimitados para o final do 'Canta Rio' custava R$ 25, enquanto o combo de figurinos oficiais da novela custava R$ 89. Com a inflação de serviços em 4,7% no acumulado de 12 meses, os fãs estão repensando os gastos.
O fenômeno pop, porém, não se limita à TV. Plataformas de streaming como o Kwai, que exibem mini-realities de criadores de conteúdo, já repassam R$ 500 mil por edição a influenciadores selecionados. A tendência, segundo o relatório da Abrainc sobre economia criativa, é que o mercado de reality shows e novelas atinja R$ 5 bilhões em 2027, com as apostas online respondendo por metade desse bolo. Fica a lição: por trás do brilho das câmeras, o dinheiro é o grande protagonista — e quem entende os bastidores financeiros sabe onde investir.


