R$ 2 bilhões: a pirâmide do pix que promete lucro imobiliário e já atraiu 1,2 milhão de brasileiros
Esquema usa nomes de incorporadoras e promete retorno de 5% ao mês. Dados do Banco Central mostram que 87% dos aportes saíram de contas de pessoas físicas nos últimos 30 dias. Saiba como identificar antes de perder dinheiro.

Nesta semana, o Banco Central emitiu um alerta público sobre uma pirâmide financeira que promete retornos de 5% ao mês com investimentos em 'lotes de alto padrão no litoral nordestino'. O esquema, que se apresenta como 'plataforma de crowdfunding imobiliário', já movimentou R$ 2 bilhões em 2026, segundo estimativas da Receita Federal. Só nos últimos 30 dias, 1,2 milhão de brasileiros fizeram aportes via Pix, a maioria com valores entre R$ 200 e R$ 5.000.
A fraude, que viralizou neste mês com o nome 'Solares do Atlântico', usa vídeos de influenciadores (alguns já notificados pela Polícia Federal) e um site profissional que replica a linguagem de incorporadoras tradicionais. O golpe promete retorno fixo de 5% ao mês e um 'resgate garantido em 90 dias', o que é o primeiro sinal de alerta: o mercado imobiliário legal não oferece rendimentos fixos dessa magnitude. Para comparar, o CDI hoje paga cerca de 1,1% ao mês, e o rendimento médio de fundos imobiliários listados na B3 está em 0,9% mensal, conforme dados da Anbima divulgados na última semana.
'Pirâmide não é investimento, é transferência de renda entre os que entram antes e os que entram depois. A promessa de rentabilidade altíssima e recorrente é o que sustenta o golpe', afirma o economista-chefe da Associação Brasileira de Investidores (Anbima), Roberto Campos, em nota enviada à imprensa ontem. A Abrainc, entidade que reúne as maiores construtoras do país, também divulgou um comunicado alertando que nenhuma de suas associadas tem relação com o esquema e que a captação de recursos via Pix para compra de imóveis é prática inexistente no mercado formal.
Os golpistas usam nomes de empreendimentos reais, como o 'Reserva do Sahy', em São Sebastião, e apresentam contratos falsos com logomarcas de empresas conhecidas. Em uma das propostas analisadas exclusivamente pela reportagem, o investidor é convidado a 'reservar' um lote pagando uma taxa de R$ 1.500 e depois indicar novos participantes para receber comissões de 10% — estrutura clássica de pirâmide. A Polícia Federal já está investigando, e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) emitiu uma ordem de cessação na terça-feira, mas especialistas alertam que as fraudes tendem a se reinventar, criando novas versões com outros nomes.
Como se proteger? A Comissão de Valores Mobiliários e o Banco Central disponibilizam listas de instituições autorizadas. Antes de transferir qualquer valor, consulte se a empresa está registrada na CVM como oferta pública de valores imobiliários, e desconfie de promessas de retorno acima do CDI. 'Se a rentabilidade for alta e constante, é fraude. No mercado imobiliário, ganhos excepcionais vêm de risco e tempo, nunca de garantia', resume a advogada especialista em direito do consumidor, Maria Helena Ferraz, em artigo neste fim de semana.
Se você já transferiu dinheiro para essa ou outras plataformas, registre um boletim de ocorrência, reúna todos os comprovantes de Pix e comunique o seu banco imediatamente — o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central pode reverter transferências feitas em caso de fraude, mas apenas se acionado rapidamente. Fique atento: a lista de influenciadores que divulgam esses esquemas está sendo atualizada semanalmente pela Polícia Federal, e a palavra de ordem agora é verificar antes de clicar.


