O programa que quer entregar 1 milhão de casas até 2028 — e já enfrenta o primeiro desafio
Lançado nesta semana pelo governo federal, o programa 'Casa da Gente' promete revolucionar o acesso à moradia popular. Mas especialistas apontam gargalos no financiamento e na articulação com estados e municípios.

O governo federal anunciou na última terça-feira, 14 de julho, o programa 'Casa da Gente', que prevê a construção de 1 milhão de unidades habitacionais até o final de 2028. A meta ambiciosa foi apresentada pelo ministro do Desenvolvimento Regional em cerimônia no Palácio do Planalto, com a presença de governadores e prefeitos de 15 estados.
O programa substitui o antigo Minha Casa, Minha Vida, que vigorou até 2025, e traz novidades: as famílias com renda de até dois salários mínimos terão prioridade, e o subsídio federal poderá chegar a 90% do valor do imóvel em regiões metropolitanas com maior déficit habitacional. Segundo dados da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras), o déficit habitacional no Brasil em 2026 é de aproximadamente 6,5 milhões de moradias, concentrado nas periferias das grandes cidades.
A primeira polêmica surgiu ainda nesta semana: a equipe econômica estima que o programa exigirá R$ 40 bilhões em quatro anos, mas o Orçamento de 2027, em tramitação no Congresso, prevê apenas R$ 8 bilhões para a área. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou ontem que 'será necessário rever as prioridades fiscais' para viabilizar a iniciativa.
Além do financiamento, outro desafio é a articulação com os governos estaduais. O estado de São Paulo, por exemplo, anunciou em junho seu próprio programa, 'Morar Bem Paulista', com meta de 200 mil unidades até 2029. Já o governo do Rio de Janeiro lançou no mês passado o 'Casa Carioca', focado em áreas de risco. A sobreposição de programas pode gerar disputas por terrenos e recursos, segundo alerta o Secovi-SP.
Para o economista João Roberto Mendes, da FGV, o 'Casa da Gente' tem potencial de aquecer o setor da construção civil e gerar empregos — o PIB da construção cresceu 3,2% no primeiro trimestre de 2026, segundo o IBGE. 'O gargalo não é demanda, mas capacidade de execução e previsibilidade orçamentária', afirma.
Enquanto o Congresso não define o aporte extra, o governo promete lançar nos próximos dias o edital para seleção de terrenos públicos federais que serão doados para o programa. A expectativa é que as primeiras obras comecem ainda neste semestre, em cidades como Salvador, Recife e Belém.


