Nova faixa do Minha Casa Minha Vida: 80 mil imóveis e entrave para 2027
Anúncio desta semana amplia subsídio para famílias de R$ 2.640 a R$ 3.300, mas promessa esbarra em orçamento e juros; veja quem consegue e como.

O governo federal anunciou nesta quarta-feira (19) a ampliação da faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, que passa a contemplar famílias com renda mensal bruta de até R$ 3.300, ante o limite anterior de R$ 2.640. A medida, publicada em portaria conjunta das pastas de Cidades e da Fazenda, promete contratar 80 mil novas unidades até dezembro, mas já enfrenta críticas de setores da construção civil, que apontam insuficiência de recursos no Orçamento de 2026.
Segundo a Abrainc, a nova faixa deve atender a um déficit habitacional estimado em 6,2 milhões de moradias, concentrado nas regiões Norte e Nordeste. O anúncio ocorre a menos de 60 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, e o governo projeta que 60% dos beneficiários sejam mulheres chefes de família, prioridade estabelecida no programa desde a sua recriação, em 2023.
A portaria também altera as regras de subsídio: famílias que ganham até R$ 2.640 terão desconto de até R$ 55 mil na compra do imóvel, enquanto as que se encaixam na nova faixa receberão subsídio máximo de R$ 40 mil. O financiamento, operado pela Caixa Econômica Federal, terá juros de 4% a 5% ao ano, abaixo da taxa de mercado, atualmente em 12,75% ao ano, patamar definido no último Copom, realizado no início de agosto.
Especialistas, porém, questionam a viabilidade fiscal da meta. A equipe econômica destinou R$ 8,2 bilhões para o programa neste ano, mas a ampliação da faixa exigiria R$ 11,5 bilhões adicionais, conforme estimativa da Fipe. O ministro das Cidades, em entrevista coletiva, afirmou que os recursos virão do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e de um remanejamento do orçamento do programa de saneamento, o que gerou reação de governadores, que temem cortes em obras estaduais.
No mercado, a reação foi mista. Ações de incorporadoras voltadas ao segmento econômico subiram até 3% na B3 após o anúncio, enquanto construtoras de médio e alto padrão recuaram, diante da possibilidade de maior competição por terrenos em áreas urbanas. A Secovi-SP avalia que a medida pode acelerar o lançamento de empreendimentos na faixa de R$ 180 mil a R$ 220 mil, mas alerta para o risco de aumento dos preços dos insumos, como o aço, que subiu 6% no trimestre atual.
Para as famílias, a recomendação é buscar informações nos canais oficiais da Caixa, que já começou a receber cadastros nesta sexta-feira (21). A seleção será feita por sorteio eletrônico, priorizando famílias em situação de rua, com mulheres como responsáveis e residentes em áreas de risco. A previsão é que a primeira lista de contemplados seja divulgada até 15 de setembro, antes do período eleitoral.
A medida representa um avanço social importante, mas sua efetividade dependerá da execução orçamentária e do comportamento da inflação, que fechou julho em 4,2% ao ano, acima da meta. Se os juros continuarem em patamar elevado, o custo efetivo do subsídio pode corroer o ganho para o beneficiário. Mesmo assim, para quem se encaixa na nova faixa, a oportunidade de sair do aluguel pode ser real — desde que a promessa se transforme em obras até o fim do ano.


