Selic a 9,75% encarece parcela do financiamento em R$ 412 já nesta semana
Copom manteve a taxa básica, mas os bancos já repassaram o custo do crédito: simulações mostram prestação até 18% maior em relação a janeiro. Veja o que muda para quem vai comprar ou já tem contrato.

Quem está de olho na casa própria sentiu o bolso pesar nos últimos dias. Mesmo com o Copom tendo mantido a Selic em 9,75% na reunião da semana passada, os bancos ajustaram suas carteiras de crédito imobiliário e a parcela média do financiamento de um imóvel de R$ 500 mil subiu para R$ 3.947, segundo simulação da Abrainc com base nas taxas praticadas nesta semana. Em janeiro, a mesma prestação saía por R$ 3.535 — uma alta de 11,6% em oito meses. O movimento surpreendeu quem esperava alívio com o fim do ciclo de aperto monetário.
A explicação está na composição dos juros. A taxa média do financiamento imobiliário com recursos da poupança atingiu 10,89% ao ano nesta semana, contra 10,42% em agosto, de acordo com levantamento do Secovi-SP. O spread bancário, que parecia acomodado, voltou a subir após a alta da inadimplência no crédito habitacional — que chegou a 2,3% em julho, o maior nível desde 2021, segundo o Banco Central. Com mais calote, os bancos protegem o balanço elevando o custo do dinheiro para todos.
O efeito é desigual. Para quem financia pela tabela SAC, a parcela inicial de um imóvel de R$ 800 mil em 30 anos pulou de R$ 5.890 para R$ 6.302 entre janeiro e setembro — R$ 412 a mais por mês, ou quase R$ 5 mil por ano. Já quem optou pelo sistema Price sente menos no começo, mas paga mais juros totais: a diferença entre os dois sistemas no mesmo contrato chega a R$ 187 mil ao final do prazo, calcula a Fipezap.
O mercado de incorporação já reage. A Abrainc projeta queda de 7% nos lançamentos no quarto trimestre em comparação ao mesmo período de 2025, com as incorporadoras priorizando unidades menores e mais baratas para não perder comprador. "O cliente que dependia de financiamento recuou, mas o pagamento parcelado direto com a construtora virou saída", afirma a entidade em nota técnica divulgada nesta semana. Nos bairros mais valorizados de São Paulo, como Vila Mariana e Pinheiros, o metro quadrado novo já acumula alta de 14% em 12 meses, segundo a Fipezap.
Para quem já tem contrato assinado, a notícia é menos amarga: as parcelas são fixas e não sofrem reajuste pela Selic. O problema é para quem está na fase de aprovação de crédito. Nesta semana, bancos como Itaú e Bradesco reduziram o teto de comprometimento de renda de 35% para 32% em alguns convênios, o que na prática corta a capacidade de compra em cerca de R$ 60 mil para uma família com renda de R$ 12 mil. A Caixa, maior financiadora do país, mantém o limite em 35%, mas elevou a exigência de entrada mínima de 20% para 24% em imóveis usados.
A saída para não perder o imóvel pode estar na portabilidade ou na renegociação. Com a Selic estabilizada, especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o segundo semestre de 2027 deve trazer algum alívio — mas não antes disso. Enquanto isso, simular em pelo menos três bancos e negociar a taxa caso a caso virou obrigação. A diferença entre a menor e a maior taxa praticada nesta semana chega a 2,1 pontos percentuais, o que num financiamento de R$ 500 mil significa R$ 730 a mais ou a menos na parcela. Vale o esforço.


