Falência relâmpago: influenciador que ostentava mansão de R$ 12 mi deve R$ 47 mi e tem bens bloqueados
Lucas Ferraz, o 'Rei do Lançamento', saiu de 2,3 milhões de seguidores para réu em 14 processos. Justiça bloqueou iate, Porsche e a cobertura na Barra. Investidores relatam prejuízo de até R$ 800 mil.

A ascensão foi tão rápida quanto a queda. Na manhã desta segunda-feira (21), a 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro aceitou o pedido de recuperação judicial de três empresas ligadas ao influenciador digital Lucas Ferraz, 34 anos, conhecido como o "Rei do Lançamento" por vender cursos de investimento imobiliário a 2,3 milhões de seguidores. O passivo declarado: R$ 47,3 milhões. O patrimônio bloqueado pela Justiça nesta semana: um iate de 62 pés avaliado em R$ 8,9 milhões, um Porsche 911 Turbo S de R$ 1,7 milhão e a cobertura triplex na Barra da Tijuca que ele exibia em vídeos como "o apartamento dos sonhos".
O roteiro da derrocada começou em maio deste ano, quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu inquérito para apurar a oferta irregular de cotas de empreendimentos na Bahia e em Santa Catarina sem registro. Segundo o processo, Ferraz captava recursos de seguidores prometendo retorno de 4% ao mês — muito acima da Selic, que na última reunião do Copom, em 16 de setembro, ficou em 10,25% ao ano. A partir de julho, os saques começaram a atrasar. Em agosto, os primeiros boletins de ocorrência.
"Ele mostrava contrato, mostrava obra, mostrava tudo. Eu coloquei R$ 800 mil da venda do apartamento da minha mãe", contou a empresária Renata Coelho, de 41 anos, uma das mais de 340 pessoas que integram o grupo de credores no WhatsApp criado há três semanas. O valor médio investido, segundo levantamento preliminar do advogado que representa 180 vítimas, é de R$ 138 mil por pessoa.
O estouro do esquema veio com a divulgação, no dia 9 deste mês, de um relatório da Abrainc que mostrou desaceleração de 6,7% nos lançamentos imobiliários no terceiro trimestre, justamente o segmento que Ferraz usava como isca. Sem novos aportes entrando, a estrutura de pagamento aos antigos investidores desmoronou. No dia 14, Ferraz publicou um vídeo de 11 minutos pedindo desculpas e anunciando que estava "reorganizando as finanças". Dois dias depois, apagou o perfil no Instagram.
A defesa do influenciador alega que ele foi vítima de uma "crise de liquidez sem precedentes" e que não há intenção de fraude. Procurado, o escritório que o representa informou que só se manifestará nos autos. A CVM, procurada, confirmou que o inquérito segue em sigilo. O Ministério Público do Rio já instaurou procedimento criminal para apurar possível estelionato e lavagem de dinheiro.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam um padrão que se repetiu em pelo menos outros quatro casos neste ano. "O influenciador digital virou a nova porta de entrada para golpes financeiros porque combina autoridade emprestada com urgência artificial", afirma o economista Fábio Meirelles, da Fipezap. "O investidor não olha a nota técnica, olha o número de seguidores." Segundo dados do Banco Central, denúncias de fraudes financeiras ligadas a criadores de conteúdo cresceram 71% no primeiro semestre de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025.
Para quem ainda tem dinheiro parado em promessas semelhantes, a recomendação é direta: verifique se a oferta tem registro na CVM, desconfie de retornos acima de 1,5% ao mês e nunca aporte com base em vídeo de rede social. "Se o projeto fosse tão bom, o banco não estaria financiando?", resume Meirelles. O iate já está no estaleiro, à espera de leilão. O Porsche, apreendido na garagem da cobertura. E os 2,3 milhões de seguidores, agora, acompanham o desfecho pela aba de notícias.


