Revelado: o golpe do falso financiamento que lucrou R$ 2,1 bi no Brasil
Esquema com promessa de taxa zero usou nome de bancos reais e atingiu 340 mil vítimas neste ano. Saiba como identificar antes de perder dinheiro.

Uma nova modalidade de fraude imobiliária está se espalhando rapidamente pelo Brasil neste mês de setembro. Golpistas oferecem falsos financiamentos com taxas muito abaixo do mercado — algumas chegam a prometer juro zero — usando nomes de bancos reais e até documentos forjados da Caixa Econômica Federal. Segundo levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o esquema já movimentou R$ 2,1 bilhões em 2026, com mais de 340 mil vítimas em todo o país.
A tática é conhecida como 'pirâmide do financiamento' ou 'golpe da portabilidade facilitada'. Os criminosos criam sites falsos que imitam instituições financeiras e anunciam em redes sociais, principalmente no Instagram e no WhatsApp. A vítima preenche um formulário com dados pessoais e, em seguida, recebe uma proposta irresistível: um imóvel de R$ 500 mil com entrada de apenas R$ 20 mil e parcelas fixas de R$ 1,8 mil em 30 anos, sem exigência de comprovação de renda. Para 'garantir' a vaga, é pedido um pagamento antecipado de taxas administrativas, que varia entre R$ 1,5 mil e R$ 12 mil.
Um relatório do Banco Central divulgado na última quinta-feira (3) alerta que as queixas sobre esse tipo de golpe cresceram 670% no segundo trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano passado. O documento também aponta que a maioria das vítimas são pessoas de baixa renda, que buscam a casa própria e encontram nos anúncios a única esperança de realização do sonho. 'Os golpistas se aproveitam da falta de educação financeira e da urgência de quem não consegue financiamento pela via tradicional', explica o advogado especialista em direito do consumidor, Ricardo Menezes, em entrevista à nossa reportagem.
A Polícia Federal deflagrou nesta semana a Operação Casa de Papel, que desarticulou 14 núcleos do esquema em cinco estados, incluindo São Paulo, Minas Gerais e Bahia. As investigações apontam que o dinheiro era lavado por meio de criptomoedas e transferências para contas no exterior. Ainda assim, novas células surgem todos os dias. O procurador da República, André Vasconcelos, afirma que 'a estrutura é profissional, com call centers e até aplicativos falsos de bancos disponíveis nas lojas oficiais'.
Para não cair na armadilha, especialistas recomendam desconfiar de ofertas com condições muito melhores do que as praticadas pelo mercado. Atualmente, a taxa média do financiamento imobiliário gira em torno de 11,5% ao ano, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário (Abecip). Qualquer proposta com juros abaixo de 7% deve ser investigada. Além disso, nunca faça pagamentos antecipados para 'liberar' um crédito: bancos legítimos não cobram taxas para análise ou aprovação de financiamento. O consumidor pode verificar a autenticidade de um site nos canais oficiais das instituições, como o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Se você já foi vítima, o primeiro passo é registrar um boletim de ocorrência e reunir todos os comprovantes. Em seguida, acione o Procon e, se o prejuízo for alto, procure um advogado. O Banco Central também disponibiliza o Registrato, uma ferramenta gratuita que mostra todos os vínculos financeiros ligados ao seu CPF, ajudando a detectar contas abertas ou empréstimos feitos em seu nome sem autorização.
A fraude não é nova, mas atingiu proporções alarmantes neste ano. No primeiro semestre de 2025, o prejuízo total estimado foi de R$ 450 milhões, segundo a Febraban. Neste trimestre, o número saltou para R$ 2,1 bilhões, o que representa um crescimento de quase quatro vezes em pouco mais de um ano. A tendência, segundo os especialistas, é que o golpe continue crescendo enquanto a economia exigir cautela e as pessoas buscarem alternativas para financiar suas casas. Por isso, a informação é a principal arma contra os criminosos.


