Nova regra do FGTS Futuro já trava 38% dos financiamentos; veja quem perde
A partir de agosto, quem usa FGTS Futuro como renda para financiar imóvel terá que recalcular o orçamento. Mudança no cálculo do teto de comprometimento pode reduzir em até R$ 60 mil o valor financiável.

O Conselho Curador do FGTS aprovou na última quinta-feira (24) uma resolução que altera drasticamente o funcionamento do FGTS Futuro, modalidade lançada em 2021 que permite usar depósitos futuros do fundo como complemento de renda para financiamento imobiliário. A medida, publicada no Diário Oficial da União nesta segunda (28), entra em vigor em 30 dias — ou seja, no fim de agosto de 2026.
Pela nova regra, o teto de comprometimento da renda com o financiamento caiu de 35% para 28% do salário bruto quando o FGTS Futuro é acionado. Na prática, um trabalhador que ganha R$ 5.000,00 e antes podia comprometer até R$ 1.750,00 por mês com a parcela, agora só pode comprometer R$ 1.400,00. Segundo simulações da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), isso reduz o valor máximo financiável em cerca de R$ 60 mil para imóveis na faixa do Minha Casa, Minha Vida.
A decisão foi tomada após o Banco Central apontar, em relatório técnico de junho, que a inadimplência entre contratos com FGTS Futuro saltou de 3,2% no primeiro trimestre de 2025 para 5,8% no mesmo período de 2026. O aumento foi atribuído à superalavancagem de mutuários que contavam com o recurso futuro para fechar as contas. Dados da Caixa Econômica Federal, obtidos pelo portal, mostram que 38% dos processos de financiamento iniciados em julho com uso do FGTS Futuro foram suspensos temporariamente após a resolução, à espera de recálculo.
Para o economista-chefe do Secovi-SP, Celso Petrucci, a medida é necessária, mas chegou em um momento sensível. "O mercado imobiliário vive uma retração natural de juros — a Selic está em 13,5% ao ano após a última reunião do Copom, em 23 de julho — e essa trava no FGTS Futuro pode desaquecer ainda mais as vendas para a classe média baixa", avalia. Petrucci estima que até dezembro de 2026, cerca de 25 mil contratos deixarão de ser fechados por causa da restrição.
O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, criticou a falta de discussão prévia com o setor. "A decisão foi tomada de forma unilateral, sem ouvir incorporadoras e construtoras. Vamos buscar uma revisão no Congresso via projeto de decreto legislativo", afirmou em nota. Já o Ministério do Trabalho e Emprego defendeu a mudança como "essencial para a sustentabilidade do sistema" e afirmou que o BC e a Caixa farão monitoramento trimestral dos efeitos.
Para quem está pensando em comprar imóvel usando FGTS Futuro, a recomendação da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) é antecipar a entrada do pedido de financiamento ainda em julho, antes da vigência. Quem já tem contrato assinado não será afetado — a nova regra vale apenas para novos financiamentos. A partir de agosto, o mutuário precisará comprovar renda adicional ou reduzir o valor do imóvel pretendido.


