Loteria: prêmio de R$ 92 milhões muda a vida de um casal de Curitiba
Ela trabalhava como auxiliar de limpeza e ele era motorista de aplicativo. O bilhete premiado na Mega-Sena da Virada saiu para uma aposta simples de R$ 5,50 feita na Lotérica do Bairro Alto.

A Mega-Sena da Virada de 2026 não fez apenas um novo milionário: ela transformou radicalmente a rotina de um casal de Curitiba que, até a semana passada, dividia um apartamento alugado de 48 metros quadrados no Bairro Alto. O prêmio principal, de R$ 92,4 milhões, saiu para uma aposta simples de R$ 5,50 registrada na Lotérica Pinhão, na zona leste da capital paranaense. A Caixa Econômica Federal confirmou o resgate nesta quarta-feira (17), após o prazo regimental de 90 dias corridos — o ganhador apareceu no 87º dia, segundo a assessoria do banco.
O casal, que pediu anonimato, tem 38 e 41 anos. Ela atuava como auxiliar de limpeza em um hospital privado e ele rodava por 11 horas diárias como motorista de aplicativo. O bilhete estava guardado dentro de uma Bíblia, na gaveta do guarda-roupa. "A gente confere sempre no domingo, mas naquele domingo eu passei mal e deixei para depois", contou a ganhadora em entrevista por telefone. "Quando vi as seis dezenas, achei que era erro do aplicativo. Chamei meu marido e a gente chorou por quase uma hora."
O sorteio, realizado no último dia 31 de dezembro, teve 4,2 milhões de apostas concorrentes — número 18% maior que o da virada de 2025, segundo a Caixa. Diferentemente de outros ganhadores que somem após o resgate, o casal procurou a assessoria de imprensa da lotérica para agradecer publicamente. O dono do estabelecimento, Joaquim Ferreira, de 62 anos, disse que a unidade vendeu três bilhetes premiados na quina nos últimos dois anos, mas nunca havia entregado o prêmio máximo.
A primeira decisão financeira veio antes mesmo do resgate: os dois procuraram um escritório de planejamento patrimonial em Curitiba ainda em janeiro, segundo o advogado tributarista Marcelo Nogueira. "O erro clássico de ganhador é comprar imóvel por impulso e esquecer que o prêmio líquido cai quase 30% com o Imposto de Renda na fonte", explica. No caso da Mega-Sena, a alíquota é de 30% sobre o valor bruto acima da faixa de isenção, o que reduziu o montante para cerca de R$ 64,7 milhões.
Com o valor líquido, o casal quitou o aluguel, comprou uma casa de 210 metros quadrados em um condomínio fechado em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, e investiu o restante em uma carteira conservadora. Segundo Nogueira, 70% foi alocado em títulos públicos atrelados ao IPCA+ e 30% em fundos imobiliários de tijolo — decisão que acompanha a tendência do mercado neste trimestre, com a Selic a 9,75% ao ano após o último Copom, em 9 de setembro.
A história, porém, tem um detalhe que poucos ganhadores podem contar: os dois continuam trabalhando. Ela pediu demissão do hospital, mas abriu uma pequena empresa de lavanderia hospitalar. Ele trocou o aplicativo por uma cooperativa de transporte escolar. "Dinheiro grande sem propósito vira problema", disse o ganhador. "A gente não queria virar aquelas histórias de gente que perde tudo em dois anos."
O caso reforça um dado curioso: segundo levantamento da Caixa obtido com exclusividade, 61% dos ganhadores de prêmios acima de R$ 50 milhões nos últimos cinco anos ainda mantêm algum tipo de atividade remunerada após 12 meses do resgate. O número contraria o senso comum de que o prêmio milionário leva ao ócio definitivo. Para o casal curitibano, a rotina mudou de endereço e de cifras, mas não de hábitos — pelo menos por enquanto.


