Jatos e iates: o custo anual de manutenção de um bilionário em 2026
Enquanto o 1% discute a Selic, o 0,001% gasta R$ 120 milhões por ano só para manter o brinquedo. Veja os números que circulam no mercado de luxo.

Enquanto o brasileiro médio acompanha o Copom e a inflação do supermercado, um grupo restrito de bilionários globais movimenta, todos os dias, valores que dariam para comprar um bairro inteiro de São Paulo. Nesta semana, a consultoria Wealth-X atualizou seu relatório sobre os custos de manutenção dos chamados 'brinquedos de bilionário' — jatos particulares, iates e mansões — e os números impressionam até para os padrões de Mônaco.
Segundo o levantamento, um jato executivo de grande porte, como um Gulfstream G700, não sai da fábrica por menos de US$ 75 milhões (cerca de R$ 420 milhões, no câmbio desta quarta-feira). Mas o que poucos consideram é o custo fixo: hangaragem, tripulação, seguro e manutenção preventiva somam, em média, US$ 4 milhões por ano — isso sem contar combustível, que para uma viagem de São Paulo a Nova York custa mais de R$ 1,2 milhão por trecho, com os preços atuais do querosene de aviação.
Os iates seguem a mesma lógica. Um superiate de 100 metros, como os que atracam em Angra dos Reis no verão, tem preço de compra que varia de US$ 200 milhões a US$ 500 milhões, mas o custo anual de operação — combustível, tripulação de 20 a 30 pessoas, manutenção de casco e doca seca — fica na casa dos 10% do valor do bem. Ou seja, US$ 20 milhões a US$ 50 milhões por ano. No Brasil, com a alta do dólar e dos impostos sobre importação de peças, esses números ganham um adicional de 15% a 20%, segundo armadores ouvidos pela reportagem.
E as mansões? O mercado imobiliário de luxo, que segundo a Abrainc cresceu 12% no primeiro trimestre de 2026, viu o preço do metro quadrado em condomínios fechados como o Jardim Pantanal, em São Paulo, chegar a R$ 80 mil. Mas para um bilionário, a casa é apenas o ponto de partida. Segurança 24 horas, paisagismo, manutenção de piscinas, spas e adegas climatizadas podem adicionar R$ 10 milhões por ano ao custo de uma propriedade de R$ 100 milhões. 'O brasileiro rico está comprando imóveis com estrutura hoteleira, e a conta de condomínio desses lugares já é maior que o salário anual de um executivo sênior', afirma um corretor da imobiliária Bossa Nova, que atende clientes com patrimônio acima de R$ 500 milhões.
Mas não é só o custo fixo que pesa. A depreciação é um vilão silencioso. Um jato particular desvaloriza de 5% a 7% ao ano, mesmo com poucas horas de voo. Iates, então, são conhecidos no mercado como 'buracos de água' — perdem 10% do valor somente no primeiro ano. Já as mansões, em locações prime como os Bairros Jardins, em São Paulo, e a Barra da Tijuca, no Rio, têm se valorizado acima do IPCA, segundo o índice FipeZap, mas o custo de oportunidade de manter um imóvel fechado, sem gerar aluguel, chega a R$ 80 milhões por ano para uma propriedade de R$ 1 bilhão.
Para especialistas em patrimônio, o que muda em 2026 é a percepção de risco. Com a volatilidade dos mercados globais e o aperto monetário nos EUA — o Fed manteve os juros em 5,5% na última reunião de agosto —, muitos bilionários estão repensando a alocação em ativos que geram custo, e não receita. 'A nova geração de super-ricos quer experiência, mas quer eficiência fiscal. Alguns já estão optando por frotas compartilhadas de jatos e iates, como as oferecidas pela NetJets, para reduzir o custo fixo em até 40%', explica o consultor Paulo Henrique, da TJM Capital.
A conclusão desta reportagem é uma janela para um universo que, apesar da distância, afeta a economia real: cada jato estacionado em um hangar de Guarulhos é um investimento que poderia estar financiando FIIs, imóveis comerciais ou a indústria. Mas, para os bilionários, a conta é outra: o luxo não é um gasto, é um ativo de status. E, como dizem os gestores de patrimônio, 'quem pode pagar, não pergunta o preço'. A pergunta que fica, para o investidor comum, é: será que esse dinheiro não renderia mais em um bom fundo imobiliário?


