IA que 'conversa' com eletrodomésticos chega a 12 milhões de lares no Brasil e muda rotina
Assistentes de voz com IA generativa já controlam geladeira, ar-condicionado e até compras do mercado em tempo real. Adoção saltou 340% em 12 meses e promete reduzir conta de luz em até 22%.

Doze milhões de residências brasileiras já têm pelo menos um eletrodoméstico conectado a uma IA generativa — um salto de 340% em relação a setembro de 2025, segundo levantamento exclusivo da Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc) obtido com antecedência por Perspectiva Imobiliária. A virada aconteceu nas últimas seis semanas, quando três grandes fabricantes nacionais liberaram atualizações que permitem conversas em português coloquial com geladeiras, máquinas de lavar, ar-condicionado e até torneiras inteligentes.
Na prática, a tecnologia deixou de exigir comandos decorados. Basta dizer "estou chegando em casa e quero a sala a 22 graus, banho quente e uma cerveja gelada" para que o sistema execute tudo antes de o morador abrir a porta. A adoção explodiu depois que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) certificou, em 28 de agosto, o novo padrão de comunicação Matter 2.1, que promete compatibilidade universal entre marcas — problema que travava o setor desde 2023.
O impacto no bolso já é mensurável. Um estudo da consultoria EY encomendado por cinco distribuidoras de energia mostra que lares equipados com IA de gestão energética reduziram a conta de luz em média 18%, podendo chegar a 22% em apartamentos de até 70 m². O truque é o aprendizado contínuo: o sistema identifica padrões de uso, desliga aparelhos em standby e negocia automaticamente o horário de recarga de carros elétricos fora do pico tarifário.
O movimento também chegou aos prédios novos. Incorporadoras como Cyrela, MRV e Direcional já entregam 47 empreendimentos neste trimestre com infraestrutura nativa para IA doméstica — tomadas inteligentes, sensores de presença e hub central incluso no contrato. A expectativa é que, até dezembro, 30% dos lançamentos residenciais no eixo Rio-São Paulo tenham o recurso como item de série, não mais como opcional de alto padrão.
No varejo, a corrida é por assistentes que fazem compras sozinhos. O Carrefour Brasil registrou aumento de 210% nos pedidos feitos por voz entre julho e agosto, após integrar seu aplicativo a três modelos de geladeira com tela. O cliente autoriza um teto de gastos mensal e a IA repõe itens básicos quando o estoque interno cai abaixo do limite — leite, ovos, café e papel higiênico lideram a lista.
Especialistas alertam para dois riscos concretos: segurança de dados e dependência excessiva. O Procon-SP registrou 1.842 reclamações no primeiro semestre de 2026 envolvendo comandos não reconhecidos ou compras indevidas feitas por assistentes de voz — alta de 78% sobre 2025. A recomendação é revisar permissões de pagamento e manter senhas fortes nos hubs centrais.
Para quem pensa em investir, o setor de imóveis conectados virou aposta de peso. Fundos imobiliários com foco em retrofit inteligente captaram R$ 3,4 bilhões entre janeiro e agosto, segundo a Anbima, e já entregam dividendos 1,7 ponto percentual acima da média do mercado. A tendência é que, em 2027, a ausência de infraestrutura para IA doméstica derrube o valor de revenda de apartamentos antigos em até 12% nas capitais — um sinal claro de que a tecnologia deixou de ser luxo e passou a ser linha de base.


