Herança de R$ 2,3 bi de Matilde Almada tem 11 herdeiros e 4 inventários na Justiça
Aos 94 anos, a dona do império de shopping centers em SP deixou um testamento que exclui dois filhos e destravou uma disputa que já corre em três varas e pode parar no STJ.

Aos 94 anos, Matilde Almada acumulou um dos maiores patrimônios imobiliários do país: 14 shopping centers, três lajes corporativas na Faria Lima e um portfólio de galpões logísticos avaliado em R$ 2,3 bilhões, segundo cálculos do escritório Alvarez & Marsal a pedido da família. O que ninguém esperava é que o testamento deixado por ela, aberto nesta segunda-feira (8) na 5ª Vara de Família e Sucessões de São Paulo, transformaria o velório da matriarca na maior disputa de herança imobiliária do trimestre.
O documento, registrado em cartório em março deste ano, destina 60% dos ativos a quatro dos seis filhos e cria uma holding patrimonial sob comando da filha mais velha, a advogada Beatriz Almada, de 68 anos. Os outros 40% vão para um fundo de investimento imobiliário que será gerido por um conselho de cinco pessoas — três delas ligadas à família. Dois dos filhos, Paulo e Renata, ficaram de fora da divisão direta e entraram com ação anulatória nesta quarta-feira (9), alegando que a mãe não tinha plena capacidade civil no momento da assinatura.
A briga não é só emocional: envolve uma decisão estratégica de mercado. Os 14 shoppings do grupo Almada registraram vendas de R$ 4,1 bilhões nos últimos 12 meses, alta de 8,7% sobre 2025, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). Só o Morumbi Plaza, carro-chefe do portfólio, tem valor de avaliação estimado em R$ 620 milhões. A Justiça paulista já nomeou um administrador provisório para os ativos enquanto o inventário não é concluído — o que pode levar anos.
O imbróglio ganhou mais uma camada nesta quinta-feira (10), quando o Ministério Público de São Paulo pediu vista do processo para apurar se houve intermediação irregular de um consultor financeiro que atuou na reestruturação da holding em 2025. A suspeita é de que ele tenha recebido comissão para direcionar ativos específicos a um dos herdeiros. Procurado, o consultor não respondeu até a publicação desta matéria.
Especialistas em direito sucessório apontam que o caso pode virar precedente. “Quando há testamento com desproporção clara entre herdeiros, o Judiciário tende a preservar a legítima dos filhos preteridos, que corresponde a 50% do patrimônio”, explica a advogada Carla Bittencourt, do escritório Bittencourt e Ramos, que não atua no caso. “O que pode salvar o testamento é a comprovação de que a matriarca tinha plena consciência e assessoria jurídica independente.”
Enquanto a disputa corre, o mercado observa. Os fundos imobiliários que detêm participações em ativos do grupo Almada — como o ALMA11, negociado na B3 — acumulam queda de 4,2% em setembro, pressionados pela incerteza sobre quem vai assumir a gestão. Para o investidor pessoa física, o recado é claro: patrimônio imobiliário bilionário sem governança definida vira risco, não só para os herdeiros, mas para todo mundo que tem exposição indireta ao negócio. A próxima audiência de conciliação está marcada para 2 de outubro, e o STJ já sinalizou que pode avocar o caso se houver conflito de competência entre as varas envolvidas.


