Golpe da casa própria: 4.200 vítimas e R$ 320 mi perdidos em 30 dias
Esquema que promete imóveis na planta com desconto de 40% já tem 4.200 vítimas e R$ 320 milhões evaporados. Entenda como funciona antes que chegue no seu WhatsApp.

Um esquema que promete imóveis na planta com até 40% de desconto virou febre nos grupos de WhatsApp e Telegram neste mês e já deixou um rastro de 4.200 vítimas e prejuízo estimado em R$ 320 milhões, segundo levantamento preliminar da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) obtido com exclusividade pela reportagem. A promessa é sempre a mesma: apartamentos em bairros nobres de São Paulo, Rio e Balneário Camboriú por um valor que ninguém consegue igualar — desde que o pagamento seja feito por PIX ou criptomoeda, sem contrato registrado em cartório.
O modus operandi é sofisticado e copia a estética dos grandes portais imobiliários. Os golpistas criam sites com CNPJ ativo e até perfis falsos de corretores com CRECI clonado. Em seguida, agendam visitas a terrenos vazios ou a decorados alugados por diárias. O golpe só se revela quando a vítima tenta registrar a compra na matrícula do imóvel e descobre que o verdadeiro dono nunca autorizou a venda. "É o golpe do falso incorporador, mas em escala industrial", resume Ana Beatriz Soares, diretora de prevenção da Abrainc.
O que acendeu o alerta das autoridades foi o volume de denúncias concentradas nas últimas três semanas. Só no Procon-SP, foram 1.870 reclamações entre 25 de agosto e 18 de setembro — mais do que todo o segundo trimestre. A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados já costura uma audiência pública para outubro, e o Banco Central investiga o uso de contas de pagamento de fintechs de pequeno porte para lavar o dinheiro.
O perfil das vítimas surpreende: 62% têm renda acima de R$ 15 mil mensais e 28% são investidores com experiência em fundos imobiliários. A isca psicológica é o medo de perder o timing do mercado. Com a Selic a 9,75% ao ano após o último Copom, em 16 de setembro, e o crédito imobiliário ainda caro, um desconto de 40% soa como oportunidade única. "O golpista não vende imóvel, vende a sensação de estar à frente dos outros", analisa o economista Rodrigo Vilela, da FGV.
A fraude também se espalhou por novas roupagens, como "consórcios digitais" que prometem contemplação imediata mediante taxa de adesão e falsos fundos imobiliários tokenizados que rendem 3% ao mês. Nos dois casos, o dinheiro dos novos entrantes paga os antigos — a clássica estrutura de pirâmide, que colapsa quando as captações desaceleram.
Para se proteger, cinco sinais devem acender o alerta: preço muito abaixo do Fipezap da região, ausência de matrícula atualizada, pagamento só por PIX ou cripto, urgência artificial ("últimas três unidades") e promessa de renda fixa alta. Antes de assinar qualquer coisa, consulte o CRECI do corretor, peça a matrícula do imóvel no registro de imóveis e desconfie de contratos que não passam por advogado. Em caso de dúvida, o canal oficial é a Delegacia de Crimes Cibernéticos ou o Procon do seu estado.


