FIIs: os 5 fundos que mais pagaram dividendo nesta semana e a armadilha do yield de 14%
Ifix sobe 1,8% na semana, mas 3 dos 5 maiores dividend yields do mês têm vacância acima de 20%. A conta que separa renda real de armadilha, segundo a Anbima.

O Ifix fechou a semana em 3.284 pontos, alta de 1,8% em cinco pregões, e devolveu ao investidor parte do otimismo que tinha evaporado depois do Copom de agosto, quando a Selic foi mantida em 10,75% ao ano. O movimento não foi uniforme: enquanto fundos de tijolo de logística e papel acumularam ganhos de 2,4%, uma ala dos fundos de recebíveis patinou e viu o spread abrir. A pergunta que circulou nos grupos de WhatsApp entre quarta e sexta é sempre a mesma: afinal, qual FII pagou mais dividendo nesta semana e por que o mercado ainda desconfia dele?
Levantamento feito pela reportagem com dados públicos de setembro mostra que os cinco maiores dividend yields do mês até aqui são: um fundo de CRI high yield (14,2%), um de papel com lastro em precatórios (13,6%), um de escritórios em São Paulo (12,9%), um de fundo de fundos (12,1%) e um de shopping centers (11,4%). A armadilha mora justamente nos três primeiros. No caso do fundo de CRI high yield, o yield de 14,2% vem de um único ativo em renegociação, o que significa que o rendimento pode desaparecer no próximo mês — ou virar prejuízo. A Anbima classifica esse tipo de carteira como 'alto risco de crédito', e o próprio regulamento do fundo prevê a possibilidade de inadimplência superior a 5% da carteira.
O fundo de escritórios, que aparece com 12,9%, é o exemplo clássico da armadilha de vacância. A cota rende porque o fundo ainda distribui caixa acumulado, mas a vacância física do portfólio está em 21,3%, segundo o último relatório gerencial. Quando o colchão acabar, a distribuição cai. Já o fundo de precatórios tem um risco diferente: o yield alto reflete o desconto no valor dos títulos, e qualquer mudança no calendário de pagamento do governo — que voltou a ser discutido no Congresso neste mês — pode atrasar o fluxo de caixa por trimestres.
Nem tudo é armadilha. Os dois últimos da lista — o fundo de fundos e o de shopping — têm algo em comum que explica por que o mercado os trata com mais carinho: distribuição recorrente e vacância sob controle. O fundo de shopping centers reportou taxa de ocupação de 96,4% em agosto, com vendas nas lojas subindo 7,2% no trimestre, segundo a Abrasce. O fundo de fundos, por sua vez, negocia com desconto de 9% sobre o valor patrimonial, o que dá margem de segurança para quem compra agora e espera a normalização dos juros.
A leitura que se tira da semana é simples: o Ifix subiu, mas a alta não foi democrática. Fundos com bom histórico de distribuição e vacância baixa capturaram o movimento; fundos que pagam dividendo alto porque estão queimando caixa ficaram para trás. O relatório da B3 mostra que o volume médio diário de negociação dos FIIs chegou a R$ 1,42 bilhão em setembro, 12% acima de agosto, o que indica que o investidor pessoa física voltou — mas com o dedo mais perto do gatilho de venda.
Para quem está de olho no próximo Copom, marcado para 4 de novembro, a recomendação que circula entre gestoras é olhar menos o yield e mais a sustentabilidade dele. Um jeito prático de fazer isso é comparar o dividendo distribuído com o resultado recorrente do fundo nos últimos três relatórios. Se o dividendo for maior que o resultado recorrente por dois trimestres seguidos, é sinal de que o fundo está devolvendo principal, não lucro. E aí, por mais atraente que pareça o número na tela, o investidor está comprando renda de mentira.


