Política

FGTS Futuro reformulado em julho: como novas regras ampliam financiamento imobiliário

Nova resolução do Conselho Curador do FGTS, publicada no dia 15 de julho, altera o uso do FGTS Futuro e deve impulsionar contratos da casa própria em até 30% no trimestre, segundo projeção da Abrainc.

Redação Perspectiva Imobiliária·
FGTS Futuro reformulado em julho: como novas regras ampliam financiamento imobiliário

O Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) publicou na última quarta-feira (15) uma resolução que reformula as regras de utilização do FGTS Futuro nos financiamentos imobiliários. A medida, em discussão desde maio no Ministério do Trabalho, amplia de 80% para 100% o percentual dos depósitos futuros que podem ser comprometidos com a amortização ou liquidação do saldo devedor. Na prática, a nova regulamentação permite que o trabalhador use todo o valor que seu empregador depositará mensalmente no FGTS ao longo do contrato como garantia adicional para o financiamento.

De acordo com a Caixa Econômica Federal, que opera 68% dos financiamentos com recursos do FGTS, a mudança já está em vigor desde segunda-feira (20). A expectativa é que o número de contratos com utilização do FGTS Futuro salte de 12 mil para cerca de 45 mil por mês até setembro. “É uma correção de rumo importante. Antes, o trabalhador só podia usar 80% do saldo futuro, o que limitava o valor financiado. Agora, com 100%, a renda comprometida no orçamento familiar cai, e a capacidade de compra sobe”, explicou o presidente da Abrainc, Luiz Antônio França, em coletiva na quarta-feira.

O FGTS Futuro foi criado em 2024, mas nunca atingiu o potencial esperado. Dados da Secretaria do Tesouro Nacional mostram que, no primeiro semestre de 2026, apenas 8,7% dos financiamentos do SFH usaram o benefício, ante uma meta de 25%. A nova resolução também simplificou a adesão: agora o trabalhador pode optar pelo FGTS Futuro diretamente no ato da contratação, sem necessidade de autorização prévia do empregador. “A burocracia era um gargalo. Com a simplificação, bancos como Itaú e Bradesco já anunciaram que passarão a ofertar o produto automaticamente em suas linhas”, afirmou o economista-chefe do Secovi-SP, Pedro Abramo.

O impacto no mercado imobiliário já é sentido. A FipeZap divulgou nesta quinta-feira (21) que os lançamentos de imóveis na faixa de R$ 350 mil a R$ 600 mil cresceram 12% na última semana nas capitais monitoradas — justamente a faixa mais beneficiada pelo FGTS Futuro. Com a possibilidade de comprometer 100% dos depósitos futuros, a renda mensal necessária para aprovação do crédito caiu em média 15%, de acordo com simulações do Banco Central. Um trabalhador que ganha R$ 4.500, por exemplo, pode hoje financiar um imóvel de até R$ 320 mil, ante R$ 270 mil antes da mudança.

A medida, no entanto, não é consenso. Especialistas apontam que o uso integral do FGTS Futuro pode comprometer a poupança forçada do trabalhador em caso de demissão. “O FGTS é uma reserva para momentos de desemprego. Se ele usa 100% do fluxo futuro como garantia, em uma demissão perde a proteção e ainda pode ficar com o imóvel em risco”, alertou a economista Marina Bittencourt, do Ibre-FGV. O governo, porém, argumenta que a nova regra inclui cláusula de suspensão automática do benefício em caso de perda do emprego, com retomada apenas após nova contratação.

Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, a mudança chega em boa hora. “Estamos saindo de um primeiro semestre com alta de juros e estoque parado. O FGTS Futuro turbinado é um estímulo sem custo fiscal, que mexe na demanda sem pressionar a inflação”, disse. A projeção do mercado é que as vendas de imóveis cresçam entre 8% e 12% no terceiro trimestre, revertendo a queda de 3% registrada no segundo trimestre.

Com a nova regulamentação, o FGTS Futuro deixa de ser coadjuvante e se torna peça central na estratégia do governo para ampliar o acesso à casa própria. Resta saber se o trabalhador brasileiro, ainda cauteloso com o mercado de trabalho, abraçará a novidade. Nas próximas semanas, os números do Caged e da Caixa dirão se a aposta do Conselho Curador foi certeira.

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