Falência da Vesti: como a startup de moda que valia R$ 2,8 bi quebrou em 8 meses
A Vesti levantou R$ 1,2 bilhão, virou queridinha do mercado e chegou a 4 milhões de usuários. Nesta semana, entrou com pedido de recuperação judicial com dívida de R$ 870 milhões.

A Vesti, startup brasileira de moda circular que chegou a ser avaliada em R$ 2,8 bilhões em janeiro deste ano, entrou nesta semana com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara Empresarial de São Paulo. O documento, protocolado na última terça-feira (9), revela uma dívida consolidada de R$ 870 milhões — sendo R$ 410 milhões com bancos, R$ 290 milhões com fornecedores e o restante com fundos de venture capital que apostaram na empresa nos últimos quatro anos.
A trajetória de ascensão foi meteórica. Fundada em 2019 por três ex-executivos do Magazine Luiza, a Vesti captou R$ 1,2 bilhão em cinco rodadas de investimento, com nomes como SoftBank, Kaszek e a gestora brasileira Atmos. Em novembro de 2025, a empresa atingiu 4,1 milhões de usuários ativos e foi eleita pela Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) como uma das dez startups que mais impactaram o setor de consumo no país — na época, a companhia negociava a compra de galpões logísticos para expandir o centro de distribuição em Cajamar (SP).
O colapso começou a se desenhar no primeiro trimestre de 2026. Com a Selic mantida em 11,75% pelo Copom na reunião de março, o custo do capital para startups em estágio avançado disparou. A Vesti, que queimava R$ 38 milhões por mês para sustentar o crescimento, viu sua rodada Série E de R$ 300 milhões ser cancelada em abril. O fundo líder alegou 'mudança de tese' diante do novo cenário de juros. Em maio, a empresa demitiu 620 funcionários — 34% do quadro.
A situação se agravou com a descoberta de um erro contábil de R$ 112 milhões no balanço do quarto trimestre de 2025, revelado com exclusividade pela Anbima em junho. O valor, segundo auditoria independente da KPMG, referia-se a receitas de logística reversa contabilizadas antes da efetiva prestação do serviço. A notícia derrubou a confiança de fornecedores, que passaram a exigir pagamento à vista. Em julho, a Vesti já acumulava 47 ações trabalhistas e 12 execuções fiscais.
O golpe final veio em agosto, quando o B3 anunciou a suspensão da negociação de debêntures conversíveis da empresa — R$ 180 milhões em papéis que venceriam em 2028. Sem acesso ao mercado de capitais e com o caixa reduzido a R$ 22 milhões (equivalente a 18 dias de operação), a diretoria tentou uma última cartada: vender a operação de logística para a Loggi por R$ 250 milhões. A proposta foi rejeitada pelos credores, que consideraram o valor abaixo do potencial. No dia 1º de setembro, o conselho aprovou por unanimidade o pedido de recuperação judicial.
Para o economista Fernando Sampaio, professor da FGV e especialista em reestruturação empresarial, o caso da Vesti é emblemático do que ele chama de 'inverno das startups brasileiras'. 'O ciclo de dinheiro barato acabou em 2022, mas muitas empresas continuaram operando como se ele existisse. A Vesti é o exemplo mais dramático porque tinha um modelo de negócio que dependia de escala rápida e capital paciente — e nenhum dos dois sobreviveu à Selic acima de 11%', analisa. Segundo dados do Banco Central, o volume de crédito para startups em estágio avançado caiu 62% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025.
Agora, a Vesti tenta renegociar suas dívidas com prazos de até 10 anos. O plano apresentado aos credores prevê o fechamento de 70% dos pontos físicos, a venda da marca por no mínimo R$ 150 milhões e a demissão de mais 300 funcionários até dezembro. Analistas ouvidos pela reportagem duvidam que a empresa sobreviva como operação independente. 'O ativo mais valioso que restou é a base de 4 milhões de clientes. Mas convencer um comprador a pagar por isso num mercado que encolheu 28% neste ano é outra história', resume Sampaio. Procurada, a Vesti não comentou o pedido de recuperação judicial.


