Falência da Rossi: imóveis de R$ 1,2 mi viram calote de R$ 800 mil
Construtora que já foi a 4ª maior do país enfrenta execução de R$ 1,2 bilhão na Justiça de SP; apartamentos comprados na planta hoje valem 40% menos e compradores ficam no prejuízo

A Rossi Residencial, que em 2012 chegou a ser a quarta maior construtora do país, com valor de mercado de R$ 4,8 bilhões na B3, agora enfrenta uma execução fiscal de R$ 1,2 bilhão na Justiça de São Paulo, protocolada nesta segunda-feira (14). A empresa, que já foi símbolo da expansão do Minha Casa Minha Vida, viu seu patrimônio líquido encolher para R$ 180 milhões negativos no balanço do segundo trimestre de 2026, segundo dados protocolados na CVM na última sexta.
O calote atinge diretamente quem comprou imóveis na planta entre 2011 e 2015. Um apartamento de 90 m² no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, vendido por R$ 1,2 milhão na época, hoje vale R$ 720 mil — desvalorização de 40% em termos reais, segundo levantamento da FipeZap divulgado na semana passada. "Paguei R$ 800 mil de entrada e o banco ainda cobra o saldo devedor de R$ 400 mil. Não tenho escritura e não consigo vender", relata o engenheiro Carlos Menezes, 52 anos, que comprou um imóvel no empreendimento Rossi Panamby em 2013.
A queda não foi por acaso. A Rossi acumulou dívida líquida de R$ 2,3 bilhões em 2026, segundo relatório da Anbima desta terça-feira (14). No último Copom, em 2 de setembro, a Selic foi mantida em 10,75% ao ano, o que encareceu o crédito imobiliário e travou a retomada do setor. A empresa tentou renegociar R$ 1,5 bilhão com bancos credores em agosto, mas as conversas fracassaram após a Caixa Econômica Federal exigir garantias reais que a companhia não possui.
O caso Rossi não é isolado. A Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) registrou 47 pedidos de recuperação judicial no setor entre janeiro e agosto de 2026, alta de 68% sobre o mesmo período de 2025. O Secovi-SP aponta que 12% dos lançamentos na capital paulista neste trimestre foram suspensos por falta de compradores com crédito aprovado. "O ciclo de juros altos desde 2022 quebrou empresas que se alavancaram demais na década passada", explica o economista Rodrigo Ferraz, da FGV.
Para quem ainda tem imóveis da Rossi na carteira, a saída é tentar a Justiça. A Defensoria Pública de São Paulo já recebeu 1.200 pedidos de assistência só neste mês, segundo a Folha apurou. O STJ, no entanto, decidiu em agosto que compradores de imóveis em recuperação judicial entram na fila de credores quirografários — ou seja, atrás de bancos e fornecedores. Na prática, a chance de recuperar o valor pago é baixa.
O que sobra da Rossi hoje é um portfólio de terrenos avaliados em R$ 500 milhões, menos de um quarto da dívida total. A empresa negocia a venda desses ativos com a MRV e a Direcional, mas não há acordo fechado. Enquanto isso, os antigos compradores seguem pagando financiamento de imóveis que nunca ficaram prontos — ou que valem menos do que custaram.


