Copom sobe Selic a 13,75% e encarece financiamento em até R$ 620 por mês
Na reunião desta semana, o Banco Central elevou a taxa básica em 0,5 ponto e sinalizou novo aperto. Para quem financia R$ 350 mil, a parcela sente o golpe já na próxima semana.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (9) elevar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 13,75% ao ano — o maior patamar desde 2023. A decisão, tomada por 7 votos a 2, veio acompanhada de um comunicado duro: o colegiado sinalizou que não hesitará em manter o aperto por mais tempo caso a inflação de serviços não ceda. O mercado, que já precificava 13,25%, reagiu imediatamente: as ações de incorporadoras listadas na B3 caíram 3,2% no pregão de quinta, enquanto os títulos do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 dispararam para 7,1% ao ano.
Para quem está na ponta do financiamento imobiliário, o recado chega rápido. Segundo a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), cada 0,5 ponto na Selic empurra os juros médios do crédito habitacional em cerca de 0,35 ponto. Na prática, um financiamento de R$ 350 mil em 30 anos, com taxa prefixada que era de 10,2% ao ano no início do trimestre, agora sai a 10,9%. A parcela inicial pula de R$ 3.130 para R$ 3.750 — R$ 620 a mais por mês, ou R$ 223 mil extras ao longo do contrato.
O movimento não é isolado. Levantamento da FipeZap com dados de agosto mostra que o crédito imobiliário já vinha desacelerando: as concessões com recursos da poupança caíram 8% no acumulado do ano até julho, na comparação com o mesmo período de 2025. Com a Selic mais alta, a tendência é que os bancos apertem ainda mais os critérios de aprovação, elevando a renda mínima exigida e reduzindo o teto de comprometimento — hoje, em média, 30% da renda familiar.
"O Copom está entre a cruz e a espada. A inflação de serviços teima em rodar acima de 5% e o mercado de trabalho segue aquecido, mas o setor imobiliário é o primeiro a sentir o freio", avalia Laura Mendes, economista-chefe da gestora carioca Rio Bravo. "A boa notícia é que o ciclo deve se encerrar no primeiro trimestre de 2027, com espaço para cortes graduais a partir de então", completa. A projeção dela é de Selic a 12,5% no fim de 2027.
Enquanto isso, o governo tenta amortecer o impacto no Minha Casa Minha Vida. O Congresso aprovou neste mês um projeto que amplia o subsídio para a faixa 1 do programa, com recursos do FGTS, e permite a portabilidade de financiamento entre bancos públicos sem cobrança de tarifa. A medida, segundo o Secovi-SP, pode beneficiar 1,2 milhão de famílias que hoje pagam juros acima de 11% ao ano em contratos antigos.
Para o investidor de imóveis, o cenário exige cautela redobrada. Com a renda fixa pagando 13,75% ao ano, o aluguel precisa render mais que isso para valer a pena — o que só acontece em nichos específicos, como galpões logísticos e imóveis comerciais de pequeno porte. "A conta da cap rate mudou. Quem compra para alugar hoje precisa mirar 0,65% ao mês de aluguel sobre o valor do imóvel, no mínimo", recomenda Mendes.
A próxima reunião do Copom está marcada para 4 e 5 de novembro. Até lá, o mercado vai digerir cada declaração do presidente do BC e cada dado de inflação. Para quem pretende financiar, a recomendação dos especialistas é clara: trave uma taxa prefixada agora, antes que o próximo aperto chegue — ou negocie um contrato indexado ao IPCA, que tem se mostrado mais previsível no longo prazo.


