Copom segura Selic em 10,75% e encarece financiamento em R$ 620 por mês
Decisão unânime do Banco Central mantém juros altos e faz bancos elevarem spread; simulação mostra que parcela de imóvel de R$ 500 mil subiu R$ 620 mensais em relação a junho.

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira (9) manter a taxa Selic em 10,75% ao ano, em votação unânime. A decisão já era esperada por 87% dos analistas ouvidos pelo Boletim Focus, mas o que pegou o mercado imobiliário de surpresa foi o tom duro do comunicado: o colegiado afirmou que "não hesitará em retomar o ciclo de aperto" caso a inflação de serviços não ceda. Na prática, o crédito imobiliário ficou mais caro pela terceira vez no trimestre.
Segundo levantamento da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), a taxa média de juros do financiamento habitacional saltou de 9,8% para 10,9% ao ano entre junho e setembro. Parece pouco, mas para um imóvel de R$ 500 mil financiado em 30 anos, com entrada de 20%, a parcela inicial passou de R$ 3.480 para R$ 4.100 — um aumento de R$ 620 por mês. No total do contrato, o custo extra ultrapassa R$ 223 mil. "É o efeito direto da Selic alta combinada com a inadimplência das famílias, que já bate 4,2% no crédito imobiliário", explica Renata Fonseca, economista da Secovi-SP.
O movimento não é isolado. Os quatro maiores bancos privados do país — Itaú, Bradesco, Santander e BTG — reajustaram suas tabelas nas últimas duas semanas. O spread bancário médio, que era de 3,1 pontos percentuais em janeiro, agora está em 4,4 pontos. A Caixa, que concentra 38% do mercado de financiamento habitacional, ainda não mexeu nas taxas do Minha Casa Minha Vida, mas já sinalizou que pode revisar as linhas de crédito associativo a partir de outubro. Procurada, a assessoria de imprensa do banco não comentou.
Para quem pensa em comprar a casa própria neste momento, a orientação dos especialistas é clara: antecipar a quitação parcial com o 13º salário ou migrar para financiamentos com taxa pós-fixada indexada ao IPCA, que hoje giram em torno de 8,2% ao ano mais correção. "O comprador precisa entender que a Selic não vai cair no ritmo que se previa em maio. O mercado futuro já precifica 9,5% só no fim de 2027", afirma o consultor financeiro Miguel Arantes, da Anbima. A recomendação vale também para quem tem contrato antigo: portabilidade de crédito imobiliário cresceu 22% neste trimestre, segundo o Banco Central.
O setor da construção civil sente o baque. A Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção) revisou para baixo a projeção de crescimento do PIB da construção em 2026, de 2,3% para 1,1%. "Cada ponto percentual na Selic tira cerca de 40 mil unidades do mercado de lançamentos", calcula o economista-chefe da Abrainc, Marcos Lopes. Os lançamentos acumulados até agosto somam 118 mil unidades, 14% menos que no mesmo período de 2025.
A política monetária também pressiona o Congresso. O projeto de lei que cria o programa "Moradia Jovem", com juros subsidiados para famílias com renda de até R$ 6 mil, está parado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado desde julho. O relator, senador Carlos Viana (Podemos-MG), condicionou o avanço do texto a um parecer do Banco Central sobre o impacto fiscal. "Sem previsão de votação antes de novembro", admitiu Viana à reportagem.
O que esperar daqui para frente? A próxima reunião do Copom está marcada para 4 e 5 de novembro, e 62% dos analistas do mercado já trabalham com a possibilidade de novo aperto de 0,25 ponto. Se isso se confirmar, a parcela do financiamento pode subir mais R$ 120 a R$ 180 por mês. Quem tem compra planejada para 2026 deve simular cenários com Selic a 11,5% e negociar taxa com pelo menos três bancos. A diferença entre a menor e a maior taxa ofertada no mercado chega a 2,3 pontos percentuais — o que, no mesmo financiamento de R$ 500 mil, representa quase R$ 90 mil ao longo do contrato.


