Política

Copom eleva Selic a 10,75% e parcela do imóvel sobe R$ 312 por mês

Decisão surpresa do Banco Central encarece financiamento imobiliário e atinge 2,3 milhões de contratos atrelados à TR; especialistas divergem sobre duração do aperto.

Redação Perspectiva Imobiliária·
Copom eleva Selic a 10,75% e parcela do imóvel sobe R$ 312 por mês

O Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu o mercado nesta quarta-feira (10) ao elevar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 10,75% ao ano. A decisão, tomada por 6 votos a 3, veio após a inflação de agosto surpreender e bater 5,2% no acumulado em 12 meses, acima do teto da meta. Para o setor imobiliário, o efeito é imediato: financiamentos com juros pós-fixados atrelados à TR já sentem o repasse, e as parcelas de contratos novos podem subir até R$ 312 por mês em um imóvel de R$ 500 mil, segundo simulação da Abrainc.

A alta veio em um momento delicado para o crédito habitacional. Dados do Banco Central mostram que o saldo da carteira imobiliária com recursos da poupança cresceu apenas 4,1% no trimestre atual, o menor ritmo desde 2023. A Caixa Econômica Federal, líder do segmento com 68% do mercado, ainda não anunciou mudanças nas taxas, mas fontes ligadas ao banco indicam que os juros do SBPE devem subir entre 0,3 e 0,6 ponto percentual nas próximas semanas. O Bradesco e o Itaú já sinalizaram reajustes a partir de segunda-feira.

O impacto não é uniforme. Contratos antigos, com juros prefixados, ficam protegidos. Já os financiamentos atrelados à TR e os créditos com garantia de imóvel (CGI) sentem o repasse mais rápido. Segundo a Anbima, 2,3 milhões de contratos ativos no país têm algum tipo de indexação à taxa referencial. Para o comprador que financia R$ 400 mil em 30 anos, a diferença entre a parcela antes e depois do Copom pode chegar a R$ 280 mensais, um acréscimo de 7,3% no bolso.

A reação do mercado foi mista. O Índice Fipezap, que mede os preços de venda e locação, havia subido 0,89% em agosto, acima da média histórica. Com o crédito mais caro, a tendência é que parte da demanda migre para o aluguel, pressionando ainda mais os preços. "O Copom tenta ancorar expectativas, mas o setor imobiliário é o elo mais sensível da cadeia. Cada 0,5 ponto na Selic tira cerca de 40 mil famílias da capacidade de financiamento", avalia Ana Paula Lima, economista da Secovi-SP.

O governo federal acompanha o movimento com preocupação. O Minha Casa Minha Vida, que atende a faixa 1 com juros subsidiados, não sofre reajuste automático, mas o teto de enquadramento pode ficar defasado. No Congresso, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou nesta semana uma audiência pública com o presidente do Banco Central para discutir os efeitos da política monetária sobre a habitação popular. A expectativa é que o tema entre na pauta de votações de outubro.

Para o investidor, o momento pede cautela. Fundos imobiliários de papel, atrelados ao CDI, tendem a se beneficiar da Selic alta, enquanto os fundos de tijolo podem sofrer com a desaceleração das vendas. Já para quem vai comprar a casa própria, a recomendação dos especialistas é antecipar a decisão: simular o financiamento em pelo menos três bancos e considerar a portabilidade, que permite migrar para uma instituição com juros menores. "A janela de crédito barato fechou. Quem esperar mais seis meses pode pagar 15% mais caro no mesmo imóvel", alerta o consultor financeiro Ricardo Tavares.

O próximo Copom acontece em 4 e 5 de novembro, e o mercado já precifica nova alta de 0,25 ponto. Até lá, o setor imobiliário vive a ressaca de uma decisão que promete redesenhar o mapa do crédito no país.

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