Aluguel por temporada explode: diária sobe 23% e bate R$ 780 no litoral em 2026
Com Selic a 9,25% e renda fixa perdendo fôlego, locação de curta duração vira o novo queridinho do investidor — mas nem todo mundo está ganhando. Veja os números e as armadilhas.

O aluguel por temporada deixou de ser aposta de nicho para se tornar o ativo imobiliário que mais cresce no Brasil em 2026. Segundo levantamento exclusivo da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) obtido por Perspectiva Imobiliária, a diária média nacional subiu 23,4% nos últimos 12 meses e alcançou R$ 782 em setembro — no mesmo período de 2025, o valor era de R$ 634. O movimento é puxado pelo litoral paulista e catarinense, onde capitais como Balneário Camboriú já registram diárias acima de R$ 1.400 em imóveis de dois dormitórios com vista mar.
O gatilho é claro: com a Selic a 9,25% após o último Copom (que cortou 0,5 ponto na reunião da semana passada), o investidor que vivia de CDB a 13% ao ano está migrando para ativos reais. A conta é simples. Um apartamento de R$ 650 mil em Florianópolis, alugado por temporada com taxa de ocupação de 68%, rende bruto de 0,95% a 1,1% ao mês — o equivalente a 12% a 13% ao ano, livre de IR sobre o aluguel. É mais do que a renda fixa entrega hoje e com correção pelo IGP-M ou IPCA embutida nos reajustes.
O fenômeno não é uniforme. Dados do Secovi-SP mostram que a ocupação média na cidade de São Paulo subiu apenas 3,2% no trimestre, enquanto o litoral norte paulista avançou 11,7%. A explicação está no turismo doméstico: o dólar a R$ 5,62 no fechamento desta sexta-feira (18) segue tirando brasileiros de destinos internacionais e empurrando famílias para o litoral nacional. Santa Catarina, segundo a Setur estadual, recebeu 1,2 milhão de turistas entre junho e agosto, alta de 18% sobre 2025.
Mas o mercado começa a dar sinais de alerta. O número de imóveis cadastrados em plataformas como Airbnb e Booking cresceu 31% em 12 meses, segundo a Anbima, e a oferta já supera a demanda em bairros como Ubatuba (SP) e Garopaba (SC). Em Ubatuba, a taxa de ocupação caiu de 71% para 62% no mesmo período, e anfitriões relatam queda real de faturamento mesmo com diária mais alta. O efeito é o oposto do que o investidor novato imagina: mais gente entrando, menos reserva por imóvel.
A regulamentação também aperta o cerco. O projeto de lei complementar 178/2026, em tramitação na Câmara, prevê que condomínios possam restringir a locação por temporada com quórum de dois terços — hoje a decisão é mais frouxa. Em Balneário Camboriú, 14 edifícios já aprovaram restrições neste ano, segundo o sindicato local. Especialistas ouvidos pela reportagem calculam que, se o texto passar como está, entre 8% e 12% da oferta de curta duração em prédios residenciais pode sair do mercado até 2027.
Para quem está pensando em entrar agora, a recomendação é fugir do óbvio. Bairros como Itacaré (BA), São Miguel dos Milagres (AL) e a região serrana do Rio — Petrópolis e Teresópolis — ainda têm diárias entre R$ 350 e R$ 550 com ocupação acima de 70% e oferta menor. O segredo é comprar onde o turismo está crescendo, não onde já saturou. E lembrar: temporada é negócio de gestão, não de renda passiva. Quem não quer administrar, terceiriza — e aí a margem cai de 13% para 7%, ainda assim melhor que a poupança.
O cenário para o verão 2026/2027 é de recorde de reservas, com antecedência média de 47 dias ante 38 dias em 2025, segundo a plataforma Stay22. A janela de oportunidade existe, mas é seletiva. O investidor que entrar agora precisa olhar para localização, regulamento do condomínio e concorrência antes de olhar para a diária. O boom é real — a bonança, nem tanto.


